Lavras Novas, MG, 1981
Uma segunda natureza emerge fortalecida. Sua verticalidade estonteante celebra a matéria orgânica como gênese do mundo, mas também revela processos e intervenções sutis da criação humana. O baile de formas e movimentos promove um encantamento inexprimível, que só pode existir no fio que entrelaça o que está no mundo com o que é pura invenção.
A obra de Advânio Lessa está intimamente conectada à atividade da agricultura e à região de Lavras Novas, tanto em relação a sua natureza orgânica, como a sua história e organização quilombola. Seu trabalho nasce da confluência entre os legados recebidos da família de seu pai — descendente de tropeiros, que desbravaram caminhos na selva para circular bens de valor comercial — e da família de sua mãe, em que a tradição da cestaria percorreu gerações. A matriz do “seu serviço” — como gosta de dizer — é o conhecimento dos antigos em relação à mata e ao trato da terra, e aos refinamentos e entrelaçamentos de materiais. O resultado são esculturas de grande escala, permeadas por ricos detalhes, que incorporam e reelaboram troncos, galhos, cabaças, cipó, raízes e outros elementos recolhidos nos arredores de onde mora e trabalha [1]. Por meio de um processo de compreensão profunda e reverente, envolvendo percepções e trocas com as fibras orgânicas, Advânio Lessa cria soluções formais características, aplicando-as em composições que sublinham a transformação, o movimento e a multiplicação da vida. Entre o barroco e o biológico, sua obra origina uma nova vegetação, com formas abstratas e fluidas que reinventam, com vigor, a floresta e seus seres, folhas e frutos. Cada peça remete a um mesmo conjunto em expansão, como se todas viessem de uma mesma ecologia, mas trouxessem também uma carga vital específica, deixando transparecer a essência molecular e os fluxos que formam tudo que existe.
Como proposição para o 38º Panorama, Advânio Lessa constrói uma rede energética formada por diferentes polos, conectando, por meio de uma série de esculturas, o principal campo expositivo a outros espaços das imediações. No lado de fora do Museu Afro Brasil Emanoel Araujo, uma peça expandida e de larga escala acopla um de seus tentáculos em uma das fachadas da instituição, como se estivesse se nutrindo da energia contida ali. Na ponta, a obra traz uma formação que sugere a imagem de um arco e flecha, apontando sua energia para sua contraparte, localizada na área externa do MAC USP. Nessa segunda escultura, um cesto acoplado em um enorme tronco funciona como receptáculo para a carga imaterial que vem da primeira, transferindo-a para um pedaço de madeira carbonizada da qual saem três flechas. Cada seta aponta em uma direção, conectando-se a outras três peças menores, localizadas em três instituições dos arredores do MAC USP, respectivamente ligadas a um pilar da vida social: espiritualidade, educação e justiça.
[1] Entre as espécies trabalhadas pelo artista, estão cipó-alho, cipó-são-joão, candeia, aroeira, alecrim, jacarandá, eucalipto e folha-miúda.

(1-5) Energia, 2014-16/2024, cipó-são-joão e cipó-alho, raízes diversas, pó de serra com cola. Coleção Vida - Acervo Studio Advânio Lessa
(6-11) Energia, 2014-16/2024, cipó-são-joão e cipó-alho, raízes diversas, pó de serra com cola. Coleção Vida - Acervo Studio Advânio Lessa
(12-13) Energia, 2014-16/2024, cipó-são-joão, cipó-alho, raízes diversas, pó de serra com cola e placa com a palavra “silêncio”. Coleção Vida - Acervo Studio Advânio Lessa
(14-15) Energia, 2014-16/2024, cipó-são-joão, cipó-alho, raízes diversas, pó de serra com cola, copo com água e copo com fubá. Coleção Vida - Acervo Studio Advânio Lessa
(16-17) Energia, 2014-16/2024, cipó-são-joão, cipó-alho, raízes diversas, pó de serra com cola, mesa, cadeira, livro, caneta de pena. Coleção Vida - Acervo Studio Advânio Lessa